Gravidade (2013)

Gravidade-poster-IMAX

A vida não é possível no espaço.

O diretor Alfonso Cuarón faz questão de iniciar seu belíssimo filme Gravidade informando sobre a impossibilidade da sobrevivência neste ambiente, com certeza um dos mais inóspitos para o ser humano – e ainda assim, o mais fascinante de todos.

Ao levar para a tela grande esta realidade, Cuarón realiza um dos mais empolgantes, tensos e tecnicamente brilhantes filmes dos últimos ano. E, de maneira certeira, nos faz encarar sem retoques todo o terror e a beleza de estar, literalmente, sozinho entre as estrelas.

O filme, calcado na ciência como poucas ficções, conta a história da engenheira médica Ryan Stone (Sandra Bullock) e de seu colega Matt Kowalski (George Clooney), que após um acidente durante uma missão de ajuste do telescópio Hubble, ficam à deriva no espaço. Para que consigam sobreviver, sua única esperança é alcançar a estação espacial russa que se encontra próxima deles.

E é isso. Esta é a trama de Gravidade. Não há mistérios, reviravoltas, conspirações ou segredos a ser desvendados. A aparente simplicidade da trama escrita por Alfonso Cuarón e seu filho Jonas esconde, na verdade, um filme complexo em suas propostas, um triunfo tanto no aspecto técnico como no aspecto emocional, estabelecendo com o público uma relação tão intensa que poucos serão aqueles que sairão ilesos ao fim da sessão.

O filme abre com um plano-sequência de cerca de 20 minutos, no qual a câmera de Cuarón registra de forma lenta e gradual a rotina de trabalhos de um grupo de astronautas. Sem cortes visíveis, realiza alguns dos movimentos mais improváveis e inusitados, deixando bem claro, desde o início, que, como estamos no espaço, todos os ângulos e posições serão admitidas na hora de contar esta história. Neste sentido, o trabalho do fotógrafo Emmanuel Lubezki (de Filhos da Esperança e A Árvore da Vida) desde já posiciona-se como um dos principais candidatos aos prêmios de 2014.

A medida que o perigo se aproxima – uma nuvem de destroços de uma satélite russo – Cuarón não se intimida em posicionar sua câmera ora como observadora – vendo a doutora Stone girando sem controle pelo espaço – ora como protagonista – e a sequência em que assumimos o ponto de vista de Sandra Bullock é com certeza um dos momentos mais desesperadores e claustrofóbicos do filme.

A atriz, por sinal, oferece em Gravidade um trabalho absolutamente notável, transitando com facilidade entre a fascinação, o desespero e a desesperança, oferecendo uma performance tão poderosa que se torna tão ou mais surpreendente do que os aspectos técnicos envolvidos na produção do longa – e fundamental para que compartilhemos de seu desejo de colocar novamente os pés no chão, em todos os aspectos possíveis.

George Clooney entrega com seu Matt Kowalski a sua versão do Clooney astronauta – simpático, bonachão, galanteador. Por trás desta generosidade, entretanto, encontra-se um profissional que sabe da necessidade de manter sua colega de trabalho tranquila e estável frente a um perigo inevitável – e mesmo que suas falas soem em sua maioria como frases de autoajuda, esta opção é absolutamente adequada ao ritmo da trama.

O design de som – obedecendo as leis da física de que o som não se propaga no espaço – é admirável, trabalhando apenas com os sons diegéticos dos aparelhos eletrônicos, das vibrações e, principalmente, da respiração ofegante de Sandra Bullock. Assim, mais do que o choque pela explosão deste ou daquele equipamento, a angústia por não ouvirmos nada do que acontece potencializa-se de forma muitas vezes insuportável.

A trilha sonora dissonante de Steven Price colabora para esse efeito de forma eficiente, embora soe um tanto quanto intrusiva em determinados momentos nos quais o silêncio já imposto pela estrutura do filme seria mais do que suficiente.

Ainda que Gravidade venha a ser reconhecido como um marco técnico, é no aspecto humano que o filme se destaca e que ficará marcado na memória dos cinéfilos. A trajetória da doutora Stone ( o sobrenome Rocha não é gratuito) oferece diversos elementos de identificação com o público. O tema da perda do chão aplica-se de forma exemplar não apenas em relação ao acidente com o ônibus espacial, mas também em relação à sua filha – morta em um acidente aleatório na Terra.

De certo modo, a sua aventura no espaço funciona como uma forma de redenção, uma chance para renascer e aprender a caminhar com seus próprios pés. Esta linha de pensamento percorre todo o filme com imagens específicas, como quando, ao chegar na estação espacial russa, Stone dorme relaxada e vai aos poucos assumindo a posição fetal.

Outro momento que retrata esta questão é quando, como um bebê que repete sons e aprende a se comunicar, Stone passa a vocalizar os sons de um cachorro captador de algum rádio amador chinês. E mesmo o desejo de recolher-se e nunca mais sair de seu casulo reflete este medo de encarar esta nova vida.

O filme trabalha suas escalas de grandeza com inteligência. De um lado, temos a doutora Stone, pequena em relação ao gigantesco planeta Terra. De outro, temos a pequena lágrima que sai dos olhos da astronauta e que flutua no espaço refletindo seu rosto. Ambas, pequenas em tamanho, mas gigantes em representar um desejo de sobrevivência.

O 3D do filme, assim como em A Invenção de Hugo Cabret Avatar, é funcional e alinha-se de forma orgânica à trama. Este é um dos poucos filmes que precisa ser visto em 3D e no cinema, de preferência em IMAX.

Para além do suspense tecnicamente impecável e emocionalmente devastador, Gravidade revela-se uma aula de cinema como poucas vezes vista. A imagem em movimento ganha mais um belo representante.

★★★★★

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s