Pecados Antigos, Longas Sombras (2014)

Ainda que tenham sido realizados em momentos quase simultâneos (La Isla Mínima terminou suas filmagens três meses antes da estreia da série), é impossível não perceber as assombrosas similaridades entre este ótimo suspense policial espanhol e a série americana True Detective.

Assim como na série escrita por Nic Pizzolatto, La Isla Mínima traz dois detetives de estilos e personalidades diferentes que devem investigar, numa trama passada anos atrás, o desaparecimento de garotas numa região pantanosa do interior do país. Ao se aprofundarem na investigação, descobrem que podem existir mais casos em comum relacionados a figuras poderosas da região.

As coincidências não param por aí. Há ainda uma forte presença da religião e do misticismo, assim como um dos policiais tem constantes visões que referentes a seu destino. Por outro lado, La Isla Mínima tem um subtexto político e social mais contundente, já que se passa no começo dos anos 80, alguns anos após a morte de Franco – o que se torna mais evidente ao percebermos que um dos policiais parece ter um passado obscuro ligado à ditadura no país.

Com um trabalho excepcional de montagem e direção de atores, La Isla Mínima não se preocupa em explicar quais os caminhos traçados pelos detetives em sua investigação, o que causa uma bem vinda insegurança ao espectador, incapaz de prever a direção da trama. A ambientação nos anos 80 traz um charme extra à obra, com os processos de investigação passando pela usual dificuldade de uma sociedade sem computadores ou telefones celulares.

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Nos papéis principais, Jávier Gutiérrez e Raul Arévalo estabelecem uma dinâmica não estruturada pela amizade, mas pelo respeito que possuem por cada um. Enquanto Gutiérrez – assim como Woody Harrelson em True Detective – encarna o policial mais experiente, já acostumado ao funcionamento da máquina , Arévalo (como McConaughey) tem um posicionamento mais questionador e métodos menos tradicionais de investigação, tornando-se muitas vezes uma pedra no sapato de seus superiores. Que eventualmente estas duas figuras entrem em posição de conflito é algo inquestionável e previsível.

O filme ainda conta com um trabalho fenomenal na fotografia de Alex Catalán, que investe nos tons quentes, nas imagens pictóricas e nas tomadas aéreas, que podem tanto servir como momentos de pausa em meio a descobertas cada vez mais perturbadoras, como funcionam como uma curiosa alegoria, transformando rios, lagos e pântanos em veias, músculos e órgãos de uma comunidade fechada em seus segredos, mas cujo sangue escorre de forma criminosa em alguns momentos.

Um sangue que nem as águas que rodeiam a Isla Mínima conseguem lavar.

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