True Detective – 2a Temporada

A segunda temporada de True Detective, série da HBO, estreou sob críticas das mais diversas, que questionavam desde a falta de ritmo, passando a história confusa ou os protagonistas sem carisma. Na verdade, o grande problema desta temporada é que ela não era a primeira. Simples assim.

Em 2014, Nic Pizzolatto e o diretor Cary Fukunaga pegaram o universo da televisão de surpresa ao entregar uma série procedural com toques sobrenaturais e liderada por dois protagonistas em estado de graça. Histórica, a primeira temporada de True Detective garantiu, com merecimento, todos os prêmios e o reconhecimento mundial por seu belo trabalho.

Disposto a simplesmente não repetir a mesma história, Pizzolatto mudou completamente a proposta para esta season 02, investindo numa trama de viés noir, com quatro protagonistas menos incensados que McConaughey e Harrelson e trabalhando com diretores diferentes a cada episódio.

Desta vez, o detetives Ray Velcoro (Colin Farrel), Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e o policial Paul Woodrugh (Taylor Kitsch) investigam um violento assassinato que envolve os chefões do crime da cidade de Vinci, a polícia e os políticos corruptos e até a máfia russa. Nesse imbroglio, temos ainda Frank Semyon (Vince Vaughn) como dono de uma rede de bares e cassinos na cidade, cujo interesse na solução do crime é mais do que simples curiosidade.

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Antes de mais nada, a verdade, porém. Esta season 02 foi mesmo irregular.

Houve obviamente um excesso de personagens, ambientes, armações, enganos. Se considerarmos ainda que cada protagonistas tinha o seu drama particular, alguns bem interessantes, outros nem tanto, tornou-se em alguns momentos quase impossível de acompanhar ou compreender o que efetivamente estava acontecendo.

Nesse ponto, Nic Pizzolatto não facilitou para o público, criando uma investigaçao evidentemente complexa, com pistas que levavam a outras pistas que levavam a outras pistas e outros suspeitos. Como todo bom noir, em determinados momentos o espectador quase esquecia qual era crime que estava sendo resolvido. Visualmente, a série captou bem o clima noir proposto, tabalhando as sombras e as luzes com inteligência, ainda que exagerando nas constantes cenas de passagem que focavam estradas e fábricas – o similar aos pântanos da primeira temporada.

Se, por um lado isso criou episódios, nos quais sempre estava presente a dúvida, por outro, corria-se o risco de afastar o público que buscava apenas acompanhar a história e compreender o andamento das investigações, o que efetivamente veio a acontecer. Quase hermética, a série clamava por mudanças em seu andamento.

Ainda, o excesso de subtramas gerou alguns momentos bem descartáveis, o que, aliado ao clima de desencanto e a uma certa falta de pressa em solucionar os conflitos, fez com que os quatro primeiros episódios sofressem com um ritmo quase cansativo. A coisa melhorou, e bastante, a partir do quinto episódio, que por sinal refletiu a própria ruptura da investigação em curso com a estrutura burocrática que vinha seguindo.

Houve também outros senões. Ainda que o Colin Farrel tenha entregado um personagem magnífico – um policial corrupto, amargo, solitário, vazio –  e McAdams convencesse como a policial durona mas com traumas indecifráveis de sua infância, Taylor Kitsch sofreu com um personagem cujo arco dramático soou limitado e pouco aproveitado, tanto que sua saída da trama no penúltimo episódio sequer conseguiu se estabelecer como relevante. Por outro lado, Vince Vaughn superou suas próprias limitações para criar um Frank Semyon cada vez mais fascinante, um bandido com um código de honra imutável, ajudado evidentemente pelos melhores diálogos da temporada.

E mesmo que não tenha atingido a excelência narrativa e a profundidade quase filosófica da primeira temporada, a season 02 – imbuída do melhor espírito de David Lynch e ecoando com honras elementos de Twin Peaks – ofereceu alguns momentos dos mais antológicos de 2015, como a conclusão mindfuck do episódio Night Finds You, o diálogo que abre o episódio Maybe Tomorrow, que, como podemos ver aqui, basicamente resume a conclusão da temporada; o absurdamente sensacional tiroteio do episódio Down Will Come; o fabuloso diálogo de Velcoro e Semyon na cozinha, assim como a tensa orgia do episódio Church in Ruins e praticamente todo o episódio final Omega Station, que fechou com tensão, emoção e um grande grau de lucidez todos os conflitos levantados ao longo de oito episódios.

Alguns podem até acusar a série de ter concluído com um episódios muito óbvio, já que o destino de Velcoro e Semyon eram mais do que esperados, mas a atenção aos detalhes, a sutileza de certas situações e a interpretação de Farrel e Vaughn, cada qual ciente de sua realidade e o que deixavam para trás, fez de Omega Station um belíssimo season finale, mesmo com os clichês mais evidentes como amantes grávidas e diamantes perdidos.

O fato é que, com mais esta temporada, True Detective se manteve novamente como uma das melhores surpresas da televisão nos últimos anos. Que venha a terceira, e que não lembre em nada as anteriores.

Em resumo: não foi uma temporada perfeita, de modo algum. Não foi melhor que a season 01, mas nem precisava.

Para o público, bastava apenas saber trabalhar com a expectativa.

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