Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

Ethan Hunt está de volta. Em sua quinta aventura no cinema em quase 20 anos, o segundo agente secreto mais conhecido do cinema chega com uma aventura de tirar o fôlego da plateia. De novo. Nação Secreta, escrito e dirigido por Christopher McQuarrie – roteirista de Os Suspeitos, aquele do Keyser Soze – não apenas é um grande filme de ação, mas se estabelece desde já como um dos grandes filmes de ação da história do cinema. E se considerarmos que neste ano tivemos o já clássico Mad Max – Estrada da Fúria detonando tudo pela frente, isto se torna ainda mais admirável.

Tematicamente, o novo Missão: Impossível é o que mais se aproxima do clima conspiratório do primeiro filme, dirigido por Brian de Palma em 1996. Aqui temos novamente a equipe desmantelada por conta de uma missão mal sucedida, a busca por uma lista secreta com nome de agentes, uma femme fatale de motivações duvidosas, uma organização criminosa – o Sindicato – que atua nas sombras e um vilão com um plano tão complexo quanto ininteligível.

Não que ficar boiando na trama faça alguma diferença. Ciente dos mecanismos que movem a franquia, tanto o diretor McQuarrie quanto o incansável astro Tom Cruise fazem a questão de seguir a cartilha sem estipular atalhos ou reinventar a roda. Isso é feito de forma tão às claras e com tanto respeito ao espectador que os próprios personagens se questionam, em determinado momento, por que diabos o governo inglês manteria uma lista secreta com nomes de agentes em um cofre numa represa no Marrocos. Boa pergunta, por quê?

McQuarrie, em seu terceiro longa-metragem – o segundo foi justamente Jack Reacher, também com Cruise – mostra uma segurança absurda em comandar sequências de ação capazes de deixar Michael Bay chorando de inveja, como o absurdamente tenso mergulho em um tanque de água ou na melhor perseguição de motos que você vai ver em muitos anos. A segurança desse pessoal é tamanha que eles sequer se importam em gastar a já famosa sequência em que Cruise literalmente se pendura na porta de um avião logo nos três primeiros minutos de filme.

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Ainda assim, McQuarrie consegue entregar momentos quase sublimes como toda a sequência que se passa na Ópera de Viena, uma pequena e sutil aula de como montar e organizar os elementos em cena sem que o espectador tenha – sequer por dois segundos – alguma dúvida do que, quem, onde, quando e como está acontecendo. McQuarrie ainda se dá ao luxo de homenagear – de forma pouco discreta – o clássico de Hitchcock O Homem que Sabia Demais, mas desta vez ao som da ária Nessum Dorma, da ópera Turandot.

À exceção da personagem de Paula Patton, toda a equipe do episódio anterior está de volta. Jeremy Renner – encarando seu segundo blockbuster do ano – retorna como o agente Brandt, esbanjando ironia e uma sempre curiosa dúvida sobre sua lealdade à Hunt. Simon Pegg, por outro lado – ainda em sua gana de um dia conseguir colocar uma máscara – encarna Benji como um companheiro que confia cegamente em seu líder, mesmo que na maioria das vezes a linha de raciocínio deste líder seja um tanto quanto equivocada. Alec Baldwin estreia na série como o diretor da CIA que não confia nos métodos da IMF, mas que irá aprender, de uma maneira ou de outra, que certos males são bem necessários. Menos bem aproveitado é o Luther de Ving Rhames, numa participação mais generosa da parte de Cruise do que realmente necessária para a trama.

Já Cruise, aos 53 anos, demonstra ter muita energia para interpretar Hunt ainda por alguns anos. Personagem tão emblemático quanto James Bond, Hunt já não soa o agente secreto indestrutível dos episódios 2 e 4, por exemplo, demonstrando uma certa dúvida sobre suas atitudes e uma boa dose de fragilidade, mas ainda assim capaz de mover montanhas para salvar seus companheiros. E correndo como ninguém, claro.

Sean Harris (que os mais críticos irão lembrar como o responsável pelo mapeamento que se perde em Prometheus) faz do vilão Solomon Lane uma figura abjeta e ameaçadora, com sua fala mansa e voz anasalada – sem contar seu perfil digno dos quadrinhos de Hergé. Infelizmente, como todo vilão de Missão Impossível, ele também não foge ao fato de tornar-se um tanto quanto imbecil no decorrer da trama e participar de uma conclusão bem forçada. Narrativamente justificada, mas bem forçada.

O grande destaque do elenco mesmo é a (até agora) semidesconhecida Rebecca Ferguson. No papel da agente Ilsa Faust, Ferguson não apenas se estabelece como uma figura fascinante de olhar hipnótico, mas sua personagem é, com certeza, a segunda melhor figura feminina a cruzar as telas nos blockbusters deste ano, perdendo apenas para a antológica Imperatriz Furiosa de Charlize Theron.

Ilsa Faust é uma agente tão eficiente quanto Hunt, capaz de dissimular suas intenções com inteligência, lutar de igual para igual com quaisquer mercenários que aparecerem pela frente e ainda ter seu próprio arco dramático independente do elenco masculino que a cerca. E, acreditem, sem cair na lábia de nosso herói.

Rodado em locações como Casablanca, Viena, Paris e Londres, este Missão: Impossível conta, ainda com uma das melhores trilhas sonoras da série, a cargo do ligeiramente desconhecido Joe Kraemer, que consegue, ao mesmo tempo, aproveitar o tema original de Lalo Schifrin em arranjos mais que dinâmicos, inserir elementos da ária Nessum Dorma em momentos mais climáticos e – finalmente – estabelecer um clima épico como poucas vezes a série teve.

Some-se a isso uma montagem absolutamente eficiente e o trabalho do veterano Robert Elswit (Sangue Negro, Protocolo Fantasma) na fotografia e o que temos é uma obra arrebatadora e capaz de deixar o espectador com um constante sorriso nos lábios – isso quando não está grudado na cadeira.

Nada mal para uma série prestes a completar 20 anos de vida. E, pelo que parece, ainda longe da aposentadoria.

Velha sim, mas não obsoleta.

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Um comentário sobre “Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

  1. Rodrigo Mendes disse:

    Olá Marcio!!

    Adorei o seu texto assim como o filme. A saga M:I ganhou um ótimo up desde o terceiro filme. De fato, este quinto filme remete ao primeiro (ainda meu favorito). Não há excesso de cenas de ação mirabolantes como no segundo (que eu sempre detestei). McQuarrie se mostrando um bom diretor já que sempre foi um excelente roteirista (deu até vontade de rever Os Suspeitos…). A vontade, não impressão, é que no momento em que o filme termina eu quero é ver mais um. Diferente do final de “Protocolo Fantasma” onde ficou óbvio uma continuação, assim como nos outros. Curiosamente, “Nação Secreta” consegue ser o mais intrigante da série, mesmo que Cruise e McQuarrie não tenham intenção de reinventar nada.O fato é que nada nesse filme é tão óbvio e por mais que a gente conheça o universo. Ao lado de “Mad Max – Road Fury,” o melhor blockbuster do ano…creio, até chegar o dia 17 de dezembro e voltarmos para aquela tal galáxia distante…

    Grande abraço.

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