Frequencies (2014)

Isaac Newton é apaixonado por Marie Curie. Infelizmente, Zak e Marie não podem passar mais de um minuto próximos um do outro, já que operam em frequências distintas, e extrapolar este tempo pode acarretar em consequências devastadoras. Marie opera em uma frequência altíssima, o que lhe garante uma harmonia completa com a natureza, além de sorte, inteligência e uma incapacidade de esboçar qualquer tipo de sentimento – um robô, como ela mesmo se chama.

Por outro lado, Zak tem uma frequência negativa, o que o torna uma pessoa em desarmonia com o cosmos, uma figura desastrada, azarada e com uma QI menor do que a maioria da pessoa. Marie consegue tudo o que quer, pois inspira empatia em qualquer pessoa, mas não sabe o que é amar. Zak luta para ser ouvido pelos outros, já que poucos se importam com ele, e busca conquistar o amor de Marie, nem que para isso precise descontruir os processos por trás do conceito da frequência, fazendo com que ambos consigam operar em harmonia.

Esta é apenas parte da premissa deste fascinante Frequencies, filme escrito e dirigido por Darren Paul Fischer, uma curiosa, provocante e ambiciosa ficção científica que se utiliza de elementos fantasiosos para configurar um universo calcado na realidade no qual o destino parece ser traçado desde o berço, e no qual o livre arbítrio é apenas uma crença estabelecida para trazer conforto às pessoas. Ou não.

Frequencies estabelece suas regras com clareza desde o seu início, um primeiro ato primoroso, no qual vemos a pequena Marie Curie Fortune – cuja sorte está até no nome – em uma instituição na qual todos os alunos têm nomes de cientistas ou filósofos. Lá ela se torna objeto de adoração do pequeno Isaac Newton, amigo de Theodore Adorno e da pequena Nicola Tesla. Essa licença poética se mostrará bastante adequada no decorrer da trama. A pequena Marie faz experimentos anuais com o jovem Isaac, já que, como foi dito, eles não podem ficar próximos por mais de um minuto – em uma destas situações, até um avião cai por conta dessa proximidade.

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Os personagens são interpretados ao longo dos anos por atores diferentes, quando crianças, adolescentes e adultos. Até por isso, é uma pena que a atriz que interpreta Marie adulta (Eleanor Wyld), não consiga transmitir a mesma introspecção, o estoicismo e a completa falta de empatia da Marie jovem (Georgina Minter-Brown). Do mesmo modo, falta ao Theo adulto (Owen Pugh) uma boa dose de sutileza em sua interpretação, que parece confundir ironia com sarcasmo.

Felizmente, todos os intérpretes de Zak conseguem manter a qualidade da atuação, principalmente o ator Daniel Fraser, que interpreta o personagem adulto na maior parte do filme. Fraser faz de Zak uma pessoa com uma fé inabalável de que é possível, sim, determinar o seu futuro, nem que para isso seja preciso mudar as próprias regras da natureza.

O apuro visual do filme é absoluto. Desde a forma como Marie vê o mundo – o diretor faz questão de enquadrá-la sempre em planos fechados, com uma profundidade de campo reduzida, deixando tudo a seu redor fora de foco e difuso – até a descoberta da fórmula capaz de equilibrar as frequências – traduzida no jogo de letras O X V – o filme traz soluções narrativas e estéticas criativas e sofisticadas.

Por exemplo: o roteiro de Darren Paul Fischer trabalha com diversos pontos de vista. A primeira meia hora de filme é relatada do ponto de vista de Marie, com uma paleta de cores fria e dessaturada. Logo depois, vemos o mundo do ponto de vista de Zak, numa paleta mais quente e saturada. Isso permite ao diretor entregar uma belíssima sequência, na qual, após Zak descobrir como harmonizar as frequências – basicamente, elevando, por meio de uma combinação de palavras, a sua e diminuindo a de Marie – ela passa a ver o mundo literalmente com outros olhos e outros tons.

Mas nem tudo é o que parece. O fato é que a narrativa delicada e quase poética do filme passa a enveredar por outros caminhos que mesclam conspirações governamentais, sociedade secretas, caos e Mozart(!), numa combinação que – brincando com a proposta do filme – não entra em completa harmonia com o que acompanhávamos antes, dando a impressão de que Fischer não confiou em seu próprio material, adicionando camadas quase que desnecessárias para dar continuidade à história.

Ainda assim, Frequencies consegue discutir com propriedade e sensibilidade questões universais sem soar pedante com pretensioso. Afinal, vivemos em um mundo determinado por equações matemáticas ou realmente temos o livre arbítrio para decidirmos nosso destino? Somos manipulados ou escolhemos nossos caminhos? A resposta, é muito provável, talvez esteja em algum lugar no meio do caminho. Ou, como o filme sugere em sua intrigante conclusão, talvez não importe. Talvez ser feliz é tudo o que buscamos.

E se fomos levados à isso ou escolhemos este caminho, isso é apenas um detalhe. 

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