Corrente do Mal (2015)

Do festival de referências que se tornou o cinema de terror americano, Corrente do Mal não foge à regra. Muito ao contrário. Em seus elementos visuais, narrativos e temáticos é possível encontrar ecos de O Chamado, Halloween, A Hora do Pesadelo, Deixa Ela Entrar – isso sem contar a sua deliciosa trilha sonora oitentista, que emula os melhores momentos do próprio John Carpenter, além dos trabalhos de Giorgio Moroder e Brad Fiedel.

Ainda assim, Corrente do Mal consegue se estabelecer como uma obra madura, que (quase sempre) foge com inteligência da maioria dos clichês e que se sustenta não pelo número de sustos ou pela violência, mas pela construção gradual de um suspense por vezes insuportável.

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Escrito e dirigido por David Robert Mitchell, Corrente do Mal  – além das referências já citadas – tem uma trama que poderia muito bem estar em um filme japonês ou tailandês, mas cujo cerne tem origem no tradicional cânone de que o sexo está intimamente ligado à culpa e à permissividade – em outras palavras, transar vai levar você à morte, de uma maneira ou de outra.

O filme conta a história da jovem Jay (Maika Monroe), que após uma transa – no carro, obviamente – com seu namorado descobre, da forma mais traumática possível, que se tornou vítima de uma maldição passada por meio das relações sexuais. Agora, junto de seus amigos e amigas, Jay terá que descobrir como escapar deste terrível destino. As regras são bem claras: se você receber a maldição, você morrerá, a menos que a passe – via sexo, obviamente – para outra pessoa. Mas, se esta pessoa por acaso morrer, a maldição volta para você.

Felizmente, não há explicações para a maldição. Não há uma aluna procurando na Internet ou em microfilmes sobre assassinatos no bairro ou algum professor aleatório explicando que tudo é obra de algum espírito fenício antigo. E aí reside a genialidade do filme. Ao deixar todas as explicações no ar, o diretor Mitchell deixa tanto seus personagens como o espectador num estado constante de tensão – um terreno desconhecido no qual tudo e todos podem ser elementos de ameaça.

Isso é ampliado de forma contundente pelo fato de que a maldição jamais assume uma forma única: pode ser uma garota estranha, um gigante, uma mulher destroçada, um velho nu, um parente antigo, um garoto com feições de fera.

Assim como um Mike Myers virtual, a regra da maldição define ainda que sua encarnação virá sempre caminhando inexoravelmente na direção da vítima. Essa informação, aliada a um trabalho brilhante de movimentação de câmera e montagem, faz com que nosso olhar jamais se desvie da tela, pois qualquer elemento dissonante pode ou não ser uma ameaça a vida dos jovens. O filme ainda prima por uma sutileza e elegância raras ao gênero, como na sequência em que Jay vê, ao longe, um grupo de rapazes em um barco – não vemos o que acontece com eles, mas seu destino é claro.

O clima de estranheza e fatalidade se completa com uma direção de arte que investe numa subúrbia decadente, repleta de casas e edifícios desgastados, e que ainda mescla elementos contemporâneos com objetos saídos diretamente dos anos 70 e 80, como televisores antigos de tubo – que reforçam a paranoia conspiratória com a exibição constante de filmes B de ficção científica – máquinas de escrever, sofás e abajures de ares retrô.

Por outro lado, o filme é repleto daquelas inconsistências e incoerências típicas do período dos filmes que referencia, como adolescentes que morrem de forma bizarra sem que a polícia se preocupe em investigar, pais ausentes (cuja presença sequer é citada) e algumas soluções involuntariamente constrangedoras – como a conclusão quase risível – o que, em certos momentos, enfraquece o resultado geral, mas que jamais empalidece este terror adulto e por vezes cruel, que aposta e acredita na inteligência do espectador.

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