Expresso do Amanhã (2013)

Os mais atentos perceberão em Expresso do Amanhã uma série de semelhanças com o recente Elysium e a série Jogos Vorazes, principalmente no que se refere ao apartheid social retratado nestas obras. Produzido por Chan-wook Park (o outro coreano doido por trás de Oldboy e Segredos de Sangue) e dirigido por Joon-ho Bong (o coreano doido por trás de O Hospedeiro, Mother e Memórias de um Assassino), Expresso do Amanhã é uma curiosa, bizarra e bem-sucedida ficção-científica, uma mistura de blockbuster americano com filme de arte – por mais distantes e heterogêneos estes estilos possam parecer.

A trama, adaptada de uma graphic novel francesa, mostra uma Terra devastada pelo gelo e pela neve após uma desastrosa tentativa de evitar o aquecimento global. Os (aparentemente) únicos sobreviventes residem em um gigantesco trem em constante movimento que cruza todos os continentes do planeta indefinidamente.

Como num evidente microcosmo de nossa sociedade, os pobres e miseráveis vivem em condições sub-humanas na ponta extrema da composição, enquanto os vagões da frente são ocupados pela bela, loira e limpa classe dominante, que impõe regras, castigos e torturas a quem se atrever a desafiar o status quo vigente. Qualquer coincidência é mera semelhança.

É nesta realidade que encontramos Curtis (o Capitão América Chris Evans, surpreendendo), um homem que passou metade de sua vida dentro do trem e que tenta liderar uma revolta contra o todo-poderoso Wilford, uma figura cuja (não)presença remete diretamente ao personagem título de O Mágico de Oz.

O tom deliberadamente exagerado, o visual por vezes izarro, as sequências de ação estilizadas e algumas situações surreais tornam o filme um deleite para os olhos e representam uma lufada de ar fresco no tão pasteurizado universo do cinema de ação americano. Como não poderia deixar de ser, a assinatura já clássica do cinema coreano também está presente, em pelo menos duas deliciosas sequências de lutas envolvendo tochas, machados, saunas e metralhadoras.

No filme Expresso do Amanhã - Chris Evans comanda uma revolução

Carregando o filme com uma segurança ímpar, Joon-ho Bong estrutura sua narrativa com o ritmo de uma locomotiva bem ajustada: acelerando ou reduzindo a velocidade quando necessário para o desenvolvimento da trama ou dos personagens, como quando Evans revela seus primeiros dias no trem ou no belo diálogo final.

Em um filme com um elenco gigantesco, é admirável como Bong consegue estabelecer claramente a personalidade e as intenções de cada figura em tela. Por outro lado, o diretor não se intimida ao eliminar sem firulas boa parte do elenco ao longo do filme, mostrando um desprezo irônico e quase cruel com seus personagens.

Além do bom trabalho de Evans, o filme ainda conta com a sempre exuberante Tilda Swinton, quase irreconhecível como a arrogante e desprezível representante da turma da frente. Há ainda intérpretes de calibre como Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, sem contar os atores-fetiche de Joon-ho Bong, Kang-ho Song e Ah-sung Ko, como pai e filha (aparentemente) viciados numa droga de propriedades literalmente explosivas. Um veterano e talentosíssimo ator surge ainda em uma participação mais do que especial no terceiro ato.

O roteiro, escrito por Bong e Kelly Masterson, surpreende pela forma simples e ao mesmo tempo inteligente com que vai jogando suas pistas pelo caminho. Assim como o trem que entra e sai de ambientes obscuros, faz aqui e ali suas curvas e desvios, o espectador também recebe a cada momento informações, detalhes, movimentos que podem ou não ter relevância para a trama e que podem ou não significar algo a mais.

Quando, por exemplo, vemos os idosos aproximando-se sem braços ou pernas – e um doce para quem concebeu John Hurt com um cabo de guarda-chuva no lugar da mão – imediatamente associamos isso a uma terrível tortura presenciada minutos antes. Ledo engano. Do mesmo modo, quando passamos a questionar a própria necessidade da existência da população que vive na cauda do trem, o filme trata de nos dar uma solução ao mesmo tempo fria em sua crueldade mas completamente coerente com o que acompanhamos até aquele momento. Mesmo as reviravoltas (e são muitas) obedecem claramente a lógica da trama.

A trilha sonora de Marco Beltrami, como sempre, é mais do que eficiente, emulando aqui e ali o score genérico do filme de ação, mas captando com presteza a atmosfera surreal e por vezes caótica proposta por Bong. A fotografia de Kyung-pyo Hong, ao lado da direção de arte de Stefan Kovacik, estabelecem o trem como uma estrutura orgânica e pulsante, com cada novo vagão estruturando mais e mais a diferença entre os miseráveis da cauda e os abastados da frente – são admiráveis os cenários, por exemplo, do aquário, da máquina eterna que conduz o trem ou da pequena e esquisita sala de aula.

Se há um aspecto negativo no filme, este vai para os precários efeitos visuais do trem percorrendo nosso planeta congelado, que possuem aquele típico visual plastificado de filmes feito para canais de tv por assinatura – o que denota o pouco investimento financeiro na obra – mas que não chegam a comprometer esta experiência avassaladora, já que a genialidade do filme se sobrepõe, e muito, a seu parco orçamento.

Expresso do Amanhã é, em suma, uma experiência diferente do que o espectador médio deseja de um filme com Chris Evans. Uma obra poderosa que, além de entreter e fascinar, ainda consegue discutir com eficiência e inteligência temas tão atuais quanto necessários.

Neste caso, para apreciar a beleza completa desta obra, nem é preciso olhar para fora da janela. Basta ficar dentro do trem mesmo.

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