Bata Antes de Entrar (2015)

A assinatura de Eli Roth na direção do suspense Bata Antes de Entrar poderia dar a entender que estamos de frente a um filmes repleto de vísceras, com um gore dos mais exagerados e repleto de misoginia. Quase lá. Ainda que esteja bem mais contido do que em suas obras mais conhecidas, como O Albergue, Cabana do Inferno ou o ainda inédito Green Inferno, é fácil perceber que algumas opções conceituais obedecem claramente à cartilha estabelecida pelo diretor: o desenvolvimento parco dos protagonistas, a completa falta de sutileza, um humor para lá de equivocado e lições de moral das mais infames.

Não que Bata Antes de Entrar seja um desastre. Longe disso. Espécie de refilmagem do obscuro Death Game, de 1977, com Sondra Locke e Collen Camp (que aparece aqui numa ponta bem bizarra), o filme traz Keanu Reeves como Evan Webber, um feliz, fiel, atencioso e carinhoso pai de família que fica sozinho em sua residência durante alguns dias, já que sua família havia viajado para a praia. Enquanto finaliza seus projetos de arquitetura ouvindo música, tomando vinho e fumando um baseado, duas jovens batem à sua porta, supostamente procurando uma amiga que mora na vizinhança. Esta primeira meia hora do filme, sejamos sinceros, é bem eficiente.

Mas, como se trata de um filme de Eli Roth, fica claro desde os primeiros minutos que essas garotas são, como diria o Bino, uma cilada. Molhadas pela chuva, a loira Bell (Ana de Armas) e e a morena Genesis (Lorenza Isso, esposa do diretor) pedem para secar suas roupas enquanto esperam o táxi.

Assim, temos Evan e duas garotas atraentes e seminuas que se insinuam com bastante insistência até que – como a carne é fraca e como o filme tem que andar – eles acabam transando. Quando percebe, logo nas primeiras horas da manhã seguinte, que as garotas são um tanto quanto desequilibradas, já é tarde. Resta agora a Evan tentar sobreviver em meio a um jogo de tensão e violência perpetrado pelas garotas.

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De início, fica claro que o diretor – também co-autor do roteiro – parece fazer uma crítica bem pontual à família de comercial de margarina que abunda nas produções hollywoodianas atuais. Prova disso é a direção de arte exagerada que coloca fotos da família – grandes, pequenas, gigantes, coloridas, em preto e branco – em todos os cômodos da residência, desde a porta de entrada até a cozinha. Por outro lado, não há como negar que boa parte das esculturas feitas pela esposa e espalhadas pela casa são nítidos símbolos fálicos dos mais diversos tamanhos e formatos.

Talvez aí esteja o problema de Bata Antes de Entrar. Ainda que a intenção de Roth seja satirizar ou mesmo ridicularizar estes arquétipos, falta a ele a sutileza para deixar a coisa menos escancarada. Por conta disso, as ações tresloucadas de Bell e Genesis jamais soam efetivamente perigosas ou ameaçadoras – justamente pelo exagero de suas atuações e das situações apresentadas.

Da mesma forma, soa desnecessário e redundante intercalar todas as cenas de sexo e violência com frames das fotos da família, como se ainda precisássemos disso para saber que o protagonista está pagando pelo seu erro.

Reeves entrega aqui, por sinal, uma de suas atuações mais absurdas e canastras de sua carreira, com diversos momentos quase nicolascageanos – como no bizarro monólogo em que se justifica para as garotas dizendo que é um bom pai e um bom marido, mas que ele não poderia recusar a pizza grátis que bateu em sua porta na noite anterior. Depois de uma atuação correta em John Wick, isto é um retrocesso artístico dos mais espetaculares. O difícil é não saber se é proposital ou não.

Completamente inverossímil ao ponto da incredulidade – e nem estamos falando do fato de duas garotas lindas e espanholas e sexualmente liberadas baterem à porta em um dia de chuva para transar com o dono da casa – Bata Antes de Entrar ainda conta com uma conclusão anticlimática e com um último discurso feminista completamente deslocado e desnecessário. E quando sabemos que este discurso vem de Eli Roth – um notório misógino e sexista – fica ainda mais difícil de engolir.

Em resumo: Bata Antes de Entrar poderia ser um filme muito divertido, mas a direção equivocada de Roth o estabelece como um produto amorfo, que não é violento como poderia ser, não é tão engraçado quanto sonha e não é tão crítico quanto deseja.

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