Modus Anomali | Ritual (2012)

Os primeiros 10 minutos de Modus Anomali, escrito e dirigido pelo indonésio Joko Anwar, estabelece com brilhantismo todo o clima de tensão, insegurança, desespero e incredulidade que irá se instalar na narrativa ao longo de seus quase 90 minutos de duração. Um homem (Rio Dewanto) desperta dentro de uma vala em meio a uma floresta. Sem se lembrar de sua identidade, o homem vagueia pela mata até encontrar uma cabana, na qual vê uma fita que mostra sua esposa sendo assassinada. Resta a ele agora encontrar seus dois filhos que estão desaparecidos e escapar da fúria de um assassino desconhecido.

Anwar dirige Modus Anomali com uma segurança ímpar. Trabalhando quase sempre com planos fechados e claustrofóbicos, o diretor mantém sua câmera em constante movimento, como se algo estivesse sempre à espreita de seus personagens, tudo isso aliado a uma fotografia que faz um bom uso das cenas noturnas e de uma trilha sonora que sabe soar tão sutil quanto intrusiva, sem que isso soe inorgânico.

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Praticamente sem diálogos, o filme se sustenta – e muito – pela interpretação visceral de Rio Dewanto, um homem preso a uma situação de completa desesperança e que tenta montar o quebra-cabeça que o levou àquela tragédia – e que envolve elementos tão díspares quanto uma espécie de rádio relógio, algumas cenas gravadas em vídeo e armadilhas na floresta.

À primeira vista, Modus Anomali parece ter problemas de ritmo, ao se estender sobre certas questões que soam desimportantes. Do mesmo modo, algumas tragédias que ocorrem ao longo da primeira metade são absolutamente previsíveis. Há ainda uma dublagem em inglês bem artificial que volta e meia tira você de dentro do filme. E como todo bom terror que se preza, Modus Anomali não se furta a inserir uma reviravolta lá pelos seus 60 minutos – daquelas capazes de fazer você rever o filme com outros olhos.

E aí é que o filme cresce de forma assombrosa. Ainda que possa parecer um tanto absurda e complexa, a reviravolta plantada por Anwar – que será explicada ao fim desta resenha – joga realmente um outro olhar sobre a narrativa que vínhamos acompanhando com atenção – e cuja percepção estava completamente equivocada.

A grande sacada de Anwar não é tornar Modus Anomali mais um daqueles filmes com reviravoltas que não fazem sentido. Sim, é preciso uma boa dose de boa vontade para aceitar a dinâmica dos acontecimentos, mas tudo se torna tão claro que a suposta trama intrincada revela-se simples e até banal.

E aí reside o grande trunfo do filme. Ao brincar, com inteligência, com a expectativa do espectador, Modus Anomali prova, mais uma vez, que grandes histórias podem estar nos cenários mais improváveis – até mesmo na batida cabana na floresta.

_explicando Modus Anomali (leia somente se você já viu o filme)

O grande segredo de Modus Anomali é que o protagonista John Evans (Dewanto) é um maníaco assassino que, ainda que pose de bom pai e marido, faz uso de drogas alucinógenas com o intuito de obter a experiência suprema em termos de violência e tensão – criando uma realidade na qual ele perde a família e é perseguido por um assassino cruel. Tudo o que vemos no terceiro ato nada mais é do que uma repetição do que ele fez com uma outra família no dia anterior, antes de acordar naquela cova rasa.

Basta perceber que – com exceção da cena em que brinca sobre o fim de semana – Evans jamais aparece junto à família na filmagem, e mesmo a foto em seu bolso, plantada por ele mesmo em algum momento, mostra apenas a mulher e as duas crianças. Evans só aparece, brevemente, quando bate à porta da casa e a mãe, grávida, vai abrir. E, para garantir que a ilusão funcione de forma perfeita, Evans apaga todas as fotos e vídeos que trouxessem imagens do pai verdadeiro.

Assim, quando vemos as duas crianças conversando sobre a necessidade de salvar o pai, e do porquê não poderem ir à polícia, elas estão apenas seguindo as instruções deixadas por Evans na cabana – de caçá-lo até a morte, já que ele teria a chave que poderia libertar o pai que, por sua vez, é o homem enterrado na lama com a frase ‘Volte para o início’ cravada em sua pele.

Quanto à figura misteriosa que supostamente o perseguia, ela nada mais era do que uma alucinação causada pela droga – a mesma que o fizera perder temporariamente a memória. E nos momentos em que Evans sofre algum ataque, é apenas as crianças indo atrás dele – percebam que a faca que entra no baú de madeira é a mesma que o garoto segura ao longo da noite. E a mesma que está sem suas mãos quando ele é assassinado. Mesmo o grito da garota ao morrer era apenas uma constatação desoladora de que ela falhara na tentativa de salvar seu pai.

Quando acorda de seu transe, Evans está disposto a ir para casa. Entretanto, ao ver uma nova família chegando em outra cabana, inicia novamente o seu jogo de gato e rato, que nada mais é do que a repetição de tudo o que havíamos visto na primeira metade.

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