Série | Jessica Jones – 1ª Temporada

O formato sacramentado pela rede de streaming Netflix ao lançar a maioria de suas séries – todos os episódios disponibilizados de uma só vez em um mesmo dia – tem uma boa dose de vantagens, assim como seus problemas. A principal vantagem é que é possível estabelecer uma unidade narrativa eficiente, na qual todos os elementos são pensados e posicionados de forma a criar um grande filme de 12 horas de duração. Por outro lado, qualquer necessidade de ajuste ao longo da temporada se mostra irrelevante, já que não é possível sequer medir a resposta do público de maneira tradicional.

Jessica Jones, a nova empreitada da Netflix no universo dos super-heróis da Marvel, carrega estas duas características. Se por um lado temos uma trama redondinha, em que nada é gratuito e todos os conflitos estabelecidos são parte integrante de um contexto amplo e complexo, ao mesmo tempo, sofremos com alguns diálogos um tanto quanto equivocados, soluções inverossímeis e uma certa falta de capricho nas sequências de ação. Nada, porém, que invalide Jessica Jones como uma série absolutamente acima da média e que, assim como Demolidor, busca trabalhar uma visão mais crua e realista de um universo por si só fantástico – o que pode até parecer contraditório, mas faz todo o sentido nesta proposta desenvolvida pela Marvel e pela Netflix.

Ao contrário de Matt Murdock, Jessica Jones é uma heroína ligeiramente desconhecida do grande público. Até por conta disso, os primeiros episódios da temporada despendem um bom tempo contextualizando e apresentando seus personagens. Abalada por um trauma do passado (quem nunca?) Jessica Jones é uma investigadora particular especializada em casas de adultério. É sintomático que uma personagem cuja vida social seja vazia e que busque a satisfação em uma garrafa de uísque passe seus dias buscando provas que irão eventualmente destroçar relacionamentos – assim como a porta de seu escritório, que insiste em passar boa parte da temporada quebrada.

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Dotada de super-força – poder esse surgido após o acidente que matou seus pais -, Jessica Jones não se vê como uma heroína – ao contrário, é uma figura quase melancólica que busca, quando muito, sobreviver a sua rotina miserável e que tem como objetivo principal se vingar do homem que a colocou no chão, o que eventualmente a leva a uma espiral de violência que atinge principalmente aqueles que lhe são próximos. Se há algo que caracteriza a Jessica Jones do seriado é o fato de que a morte está literalmente a seu lado.

Aí que entra o grande trunfo de Jessica Jones. Ainda que Krysten Ritter faça um grande trabalho – criando uma protagonista beberrona, boca-suja, displicente e que prima pelas decisões equivocadas, o grande destaque da série atende pelo nome de David Tennant – nosso eterno Doctor Who -, magistralmente irônico e ameaçador como o vilão Kilgrave. Se formos avaliar Jessica Jones em seus preceitos mais básicos, o que temos é, no fundo, uma história de amor mal resolvida, tendo de um lado uma mulher machucada e violentada em todos os sentidos e do outro um homem capaz de controlar a mente das pessoas com apenas uma palavra. Que ele passe boa parte da temporada buscando se reconciliar com Jessica – ainda que para isso precise deixar um rastro de corpos em sua trajetória – é um dos pontos mais interessantes da série, e que diz muito sobre sua personalidade egocêntrica e arrogante.

Os 13 episódios desta primeira temporada são um tanto irregulares – e é evidente que a série cresce muito a partir do momento em que Tennant entra de vez na trama. Como toda boa produção da Marvel, há diversos elementos e personagens que são apresentados ao longo da trama e que terão sua importância esclarecida mais à frente, como as presenças de Luke Cage (Mike Colter), que ganhará também sua série própria em 2016, e do ex-agente Will Simpson (Will Traval), que pode atuar em uma futura temporada de O Demolidor como Bazuca, um dos personagens mais marcantes da saga A Queda de Murdock.

Com um ritmo eficiente, sequências impactantes (a da delegacia e a dos enforcados são magistrais) e uma produção ao mesmo tempo elegante e sóbria – a fotografia investe nos mesmos tons contrastantes de Demolidor e a trilha sonora traz elementos de jazz que remetem ao noir – Jessica Jones só não se sai melhor do que o esperado por conta das confusas  e simplórias sequências de ação – nas quais a super-força de Jessica varia de acordo com as necessidades do roteiro – e por conta de diálogos que insistem em ser engraçadinhos e terminar sempre com uma punch line, mesmo nos momentos mais dramáticos. Há ainda um certo anticlímax em sua conclusão – que apontava, há pelo menos 3 episódios, para algo grandioso e que no fim soou apenas básico.

Ainda assim, são pequenos tropeços que não invalidam a imensa qualidade desta série que, ainda que transite no mesmo universo de Demolidor, é inteligente o suficiente para criar sua própria identidade, investindo em trama mais intimista e em um suspense – em alguns momentos, quase terror – psicológico dos mais impactantes. E, de quebra, apresentando um vilão que todos irão adorar odiar.

Que venha a segunda temporada, regada a muito sexo e uísque.

 

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