O Regresso (2015)

Não há uma cena sequer em O Regresso que não esteja a serviço do virtuosismo técnico e narrativo do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu – vencedor do Oscar de Direção em 2014 por Birdman. Se isto transforma o filme em uma experiência sensorial como poucas, também mostra um diretor que, assim como em Birdman, parece mais preocupado em mostrar seu talento como artista (e esteta) do que em contar a sua história. Em alguns momentos, isso pode soar de forma absolutamente brilhante. Em outros, porém, soa apenas como verniz desnecessário e por vezes inconveniente.

O Regresso se baseia na história verídica de Hugh Glass, explorador e guia de expedições de caça no interior dos Estados Unidos, no início do século 19. Em uma destas expedições, Hugh é violentamente atacado por um urso e abandonado covardemente em uma cova rasa por um de seus companheiros. A ele, resta somente sobreviver para se vingar daqueles que, sem a menor consideração, o deixaram à beira da morte.

A plot de O Regresso é absolutamente simples e já havia sido contada em 1971 no filme Fúria Selvagem, com Richard Harris. Iñárritu, porém, transforma esta história de vingança e sobrevivência em um épico de proporções grandiosas e impressionantes, a começar pela sequência inicial em que o grupo de exploradores é massacrado por índios, um start tão fulminante que em muitos momentos lembra o desembarque na Normandia de O Resgate do Soldado Ryan. Esta sequência, por sinal, já mostra boa parte das escolhas criativas que serão utilizada ao longo do filme: grandes angulares, câmeras que giram sobre o próprio eixo, planos-sequência, iluminação natural e uma violência explícita e realista capaz de dar inveja à Sam Peckinpah.

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O fato é que O Regresso é um filme belíssimo. Não há como negar. Suas paisagens que se estendem por florestas, canyons, geleiras e montanhas estabelecem de forma absoluta a questão do homem contra a natureza ou o seu destino, uma temática bem cara à filmografia de Iñárritu. Assim como Michael Keaton em Birdman, Leonardo Di Caprio (em uma atuação visceral, com um mínimo de diálogos e calcada primordialmente em olhares e movimentos e que deve lhe render o seu primeiro Oscar) é um homem obstinado que parece preso a um destino que soa inevitável, mas que ainda assim encontra forças em suas memórias e em seu instinto de sobrevivência para sobrepujar um ambiente amplamente hostil e violento.

E a violência em O Regresso chega de todos os cantos, seja dos animais ditos irracionais como dos supostamente racionais. Assim, se a sequência do ataque do urso é um dos momentos mais tensos, cruéis e taquicardíacos dos últimos anos (um triunfo em termos de montagem e efeitos visuais), o comportamento dos homens brancos alcança um nível semelhante de vilania, especialmente na figura abjeta de Fitzgerald (Tom Hardy), um sujeito tão mesquinho e intolerante que é capaz de destratar continuamente o filho mestiço do homem responsável por levá-lo de volta para casa.

Se você acha isso um exagero, é porque o roteiro estabelece este personagem de forma estritamente unidimensional, uma figura que é como é apenas porque a história assim o necessita. Ainda que perseguido pelo medo, pela culpa e pela ignorância, Fitzgerald acaba sendo, no final, apenas um vilão de bigode com uma cicatriz na cabeça. Só faltou o olho de vidro.

Com quase duas horas e quarenta de duração, O Regresso também exibe a sua dose de exageros. De um lado, temos uma montagem que se beneficiaria de pelo menos uma redução de uns 20 minutos (Iñárritu nos faz acompanhar por um bom tempo o destino do restante do grupo liderado por Domnhall Gleeson – que ano, hein? – para simplesmente esquecê-lo e retornar a ele apenas no terço final) e a retirada de alguns arcos dramaticamente compreensíveis, mas que se perdem no resultado geral, como a busca do chefe indígena pela filha desaparecida. De outro, temos um protagonista que parece ir aos poucos perdendo sua humanidade e sua evidente fragilidade para se transformar ao longo do filme em um ser indestrutível – após ser praticamente destroçado por um urso, é pouco crível vê-lo saltando de um penhasco em um cavalo e sair completamente ileso enquanto o animal literalmente parte-se em dois.

Iñárritu, entretanto, está pouco se importando com a verossimilhança. Mais do que a história de Hugh Glass ou seu caminho de volta à civilização, o diretor busca em O Regresso flertar com o existencialismo de Tarkovski e de Malick – e perigosamente com a pieguice de Ridley Scott em Gladiador – em suas imagens absurdamente admiráveis que evocam a todo tempo a força da natureza e a pequenez do homem frente a ela.

Mais que um filme de sobrevivência e de vingança eventualmente episódico, O Regresso é uma obra cuja força está em suas imagens e nas sensações que estas evocam. É um filme que precisa ser visto. Fosse mais sutil nesta sua proposta, seria uma obra-prima. Mas é impossível não ouvir a voz quase invasiva do diretor por trás de cada tomada. Talvez tornar-se invisível seja o maior desafio de Iñárritu em suas próximas obras.

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