Melhor Filme | Oscar 2016

Confira agora, em um mesmo post, a opinião do Mister Glass sobre as oito obras indicadas ao prêmio de Melhor Filme na cerimônia do Oscar do dia 28 de fevereiro de 2016. Os filmes estão indicados por ordem de preferência, estando Mad Max em primeiro lugar e Ponte dos Espiões em último.

11110866_658246694280855_1682386295316885693_oMAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA

Se havia alguma dúvida em relação as qualidades do novo Mad Max, podem ficar tranquilos.
Estrada da Fúria não apenas é um excelente filme, como é provavelmente o blockbuster mais alucinado e alucinante dos últimos anos, uma aventura repleta de energia, ritmo, loucura e bizarrices levada a níveis extremos.
Mad Max é, em sua essência, um gigantesco clímax de 120 minutos – com poucos minutos de descanso – que revigora a franquia de forma absolutamente eficiente e se estabelece como uma experiência memorável, um filme que te pega pela garganta e te deixa completamente extasiado e esgotado ao fim da sessão.
Em resumo: imperdível é pouco.
https://callmemisterglass.wordpress.com/2015/05/15/2469/

 

12744708_10154094788729672_5328009982159253052_nO QUARTO DE JACK *****

O diretor Lenny Abrahamson já havia me conquistado no ano passado por conta de Frank, um filme estranho sobre um Michael Fassbender com uma cabeça gigante de papel machê. Agora, Abrahamson chega dilacerando com este fenomenal O Quarto de Jack, uma obra dolorosa, inquietante, mas ao mesmo tempo com um olhar doce e sensível sobre a relação de mãe e filho trancados contra a vontade em um cubículo que o garoto chama carinhosamente de Quarto.

O roteiro, escrito por Emma Donoghue, baseado em seu livro homônimo, é uma pérola de sutileza e sensibilidade, tornada ainda mais contundente pela direção assombrosa de Abrahamson, que jamais perde o pique em um filme que é passado 90% de seu tempo em apenas dois ambientes.

Todo essa excelência da direção e do roteiro, curiosamente, torna-se pequena frente à atuação de Brie Larson, como a Mãe, e do absurdamente talentoso Jacob Tremblay como Jack, um garoto que passou a vida inteira dentro de um quarto e incapaz de compreender a simples noção de dentro e fora, ou de imaginar o que significa algo que está ‘do outro lado da parede’.

Ainda que Larson esteja soberba – seja como a mãe que protege seu filho de uma realidade insuportável ou como a jovem traumatizada incapaz de seguir em frente – a alma do filme é o garotinho Tremblay, que entrega não apenas uma atuação perfeita, natural, radiante e complexa, como faz de Jack um dos personagens mais emblemáticos deste nosso cinema do século 21.

12510499_10154024479494672_8924445482831243842_nA GRANDE APOSTA *****

Quem me conhece sabe da minha admiração por Adam McKay, um cineasta que – em parceria com o alucinado Will Ferrel – entregou algumas das comédias mais insanas e divertidas dos últimos anos, como O Âncora e sua continuação Tudo por Um Furo, Ricky Bobby – A Toda Velocidade, Quase Irmãos e Os Outros Caras.

Agora, McKay entra chutando a porta no seleto primeiro time da indústria com este sensacional A Grande Aposta, uma obra tão alucinada quanto contundente, tão inverossímil quanto tristemente verdadeira.

A trama é, em seu essência, praticamente ininteligível para quem não é íntimo do mercado imobiliário ou financeiro. Em resumo, o filme mostra como alguns investidores, ao perceberem que o mercado imobiliário americano era, em meados dos anos 2000, uma ‘bolha’ atômica prestes a explodir, resolveram faturar em cima da crise, que era continuamente alimentada e plenamente ignorada pelos bancos e pelo governo federal.

O tema, por si só espinhoso, é tratada de forma absolutamente espirituosa por McKay, por meio de uma narrativa pouco convencional que quebra constantemente a quarta parede (colocando os personagens para falar com o público), usa de montagens e cortes rápidos e que traz figuras como Margot Robbie e Selena Gomez para explicar os pontos mais obscuros da trama. Como se isso fizesse alguma diferença.

O fato é que vc não precisa se ater aos detalhes (e nem entendê-los) para compreender o que está em jogo no filme. Com um olhar francamente cínico e uma dose cavalar de sarcamo – e lidando com personagens que são majoritariamente canalhas gananciosos da pior espécie – McKay, ainda assim, consegue fazer com que o filme seja uma experiência completamente prazerosa, ainda que muitas vezes o espectador acabe se perguntando se tudo aquilo que está acontecendo realmente ocorreu daquela forma.

Em um elenco repleto de estrelas, Christian Bale mais uma vez desaparece sob a identidade de uma gênio das finanças com problemas de relacionamento interpessoal e Steve Carrel encarna o personagem que faz às vezes do público, mas que nem por isso deixa de ser menos calhorda. Brad Pitt, um dos produtores, faz a sua usual ponta de luxo.

Demonstrando uma agilidade e uma esperteza ímpar para organizar um trama francamente complexa, McKay impõe um ritmo admirável ao filme, uma obra cuja linguagem se aproxima muito da comédia farsesca que ele tanto admira, mas cuja história e suas consequências são bastante reais e até hoje abalam a economia mundial – e nossas vidas, por consequência.

12540925_10153998143394672_3082800802636526128_nSPOTLIGHT – SEGREDOS REVELADOS **** 1/2

O filme conta a história de uma equipe de jornalistas investigativos que descobre como a Igreja Católica Americana, de forma sistemática, foi conivente com os milhares de casos de abusos sexuais cometidos por padres contra crianças ao longo dos anos.

Dirigido por Tom McCarthy, o filme é uma obra que segue a tradição de clássicos como Todos os Homens do Presidente e Zodíaco, entre outros, ao colocar o espectador junto com os personagens, à medida que estes vão descobrindo os horrores encobertos não apenas pela Igreja, mas por autoridades que deveriam, primeiramente, zelar pelo bem estar das crianças.

O roteiro é preciso, coeso, sem firulas e absolutamente sem concessões, fugindo do didatismo ou do sentimentalismo (com exceção de uma cena) que o tema poderia pedir.
Na mesma linha, a direção de McCarthy é elegante e sutil, mas contundente ao mostrar a ‘presença’ da Igreja na vida dos personagens, seja ao vinculá-la com o poder político como ao representá-la de forma concreta por meio de suas igrejas, colégios e internatos, que sempre surgem por trás de muros, grades e parques.

Em um elenco majoritariamente coeso, Mark Ruffalo acaba ganhando um destaque evidente – assim como Rachel McAdams, indicada ao Oscar – mas é Michael Keaton , com sua figura austera e consciente dos horrores que irá encarar, quem marca a memória do espectador. A trilha sonora, melancólica, as vezes atrapalha um pouco o filme, mas são pecados menores frente a um filme poderoso e que escancara pecados muitos maiores que isso.

12742070_10154104563109672_655782349269745319_nBROOKLYN ****1/2

Brooklyn é um filme que te conquista pela simplicidade, pela eficiência e pela beleza com que sua história é contada. Com um roteiro absurdamente conciso de Nick Hornby, o filme do diretor John Crowley conta a história da jovem Eilis, que em meados dos anos 1950, decide abandonar a vida sem aspirações da Irlanda e viajar para os Estados Unidos.

A grande sacada de Brooklyn é se estabelecer como um filme que foge completamente às expectativas do público – não há grandes conflitos, cenas grandiloquentes, vilões ou reviravoltas – provando que é possível contar uma ótima história sem grandes arroubos dramáticos ou cenas catárticas.

Tecnicamente perfeito, o filme conta com um trabalho memorável na fotografia, na direção de arte e nos figurinos, que conseguem traduzir com perfeição não apenas as mudanças de personalidade como as percepções da protagonista – percebam como a fotografia do filme e o figurino de Eilis mudam quando ela se apaixona e se torna mais confiante, por exemplo.

A cereja do bolo fica por conta de Saoirse Ronan, merecidamente indicada do Oscar, que entra definitivamente para o time das grandes atrizes de Hollywood, entregando uma personagem verdadeira pela qual sentimos uma forte empatia e torcemos desde os primeiros minutos de filme.

Veja e se apaixone.

12645070_10154062481779672_2742352846515911023_nO REGRESSO ****

Não há uma cena sequer neste visualmente fabuloso O Regresso que não esteja a serviço do virtuosismo técnico e narrativo do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu – vencedor do Oscar de Direção em 2014 por Birdman.

Se isto, por um lado, transforma o filme em uma experiência sensorial como poucas, por outro, mostra um diretor que parece mais preocupado em mostrar seu talento como artista (e esteta) do que em contar a sua história.

Em alguns momentos, isso soa de forma absolutamente brilhante. Em outros, porém, soa apenas como verniz desnecessário e por vezes inconveniente.
https://callmemisterglass.wordpress.com/2016/02/05/o-regresso-2015/

553_10153960996199672_3486998444873382734_nPERDIDO EM MARTE ****

Nada como um dia após o outro. Depois de quatro obras absurdamente irregulares (leia-se Exodo, O Conselheiro do Crime, Prometheus e Robin Hood), eis que Ridley Scott retorna à sua melhor forma neste Perdido em Marte, uma ficção-científica absolutamente divertida, interessante e com um trabalho excepcional de Matt Damon, que literalmente carrega o filme nas costas.

A trama do astronauta que é abandonado em Marte e precisa lutar para sobreviver até que uma missão de resgate o salve tinha tudo para se tornar um drama tão tenso quanto Gravidade.

Curiosamente, Scott resolveu levar o filme numa toada leve e absolutamente bem-humorada, o que se mostra uma decisão das mais acertadas. O roteiro de Drew Goddard trabalha a história quase que como uma fábula sobre a sobrevivência e capacidade so ser humano em vencer os desafios que lhe são apresentados.

Ciente do excesso de personagens – que necessariamente precisam estar na trama – Goddard e Scott fazem a lição de casa corretamente: todos têm sua função claramente estabelecida na trama, mas estão ali apenas para servir de background à trajetória do personagem de Matt Damon, cujo talento e carisma são suficientes para que o público o acompanhe com atenção pelas mais de duas horas de filme.

Perdido em Marte é mais um dos ótimos blockbusters do ano – provando mais uma vez que um bom roteiro aliado a um diretor de talento (quase) sempre resulta em um grande filme.

1935596_10154024025664672_4046511954550721432_nPONTE DOS ESPIÕES ***

Baseado em fatos reais, Ponte dos Espiões traz mais uma parceria de Steven Spielberg com o astro Tom Hanks, desta vez no papel de um advogado responsável pela defesa de um espião russo que se vê, aos poucos, envolvido em uma complexa negociação para a troca de prisioneiros entre Russia, Alemanha Oriental e Estados Unidos.

Tom Hanks insufla a seu papel a dignidade e a confiablilidade que se espera de seu personagem, mas o destaque mesmo fica para Myke Rylance como o espião russo capturado, um personagem cujo estoicismo e resignação são dos mais admiráveis. Como é de se esperar, a direção de arte é primorosa e Thomas Newman ocupa bem (até demais) a vaga deixada aberta por John Williams.

A boa premissa proposta pelo roteiro co-escrito pelos irmão Joel e Ethan Coen, entretanto, não flui como deveria, muito por conta da atual mão pesada do diretor Steven Spielberg que, assim como nos irregulares Lincoln e Cavalo de Guerra, força a barra em seus maneirismos visuais – já está mais que na hora de ele e o diretor de fotografia Janus Kaminski brigarem – num maniqueísmo dos mais vergonhosos (os soldados russos ou alemães só não são piores que os nazistas de A Lista de Schindler) e, claro, num sentimentalismo que beira a pieguice, isso sem contar as patriotadas quase dignas de Michael Bay.

No balanço geral, fica um filme bem produzido, com um terço inicial primoroso – uma trama intrincada que lembra as obras de John Le Carré e que investe muito mais nos diálogos e no clima conspiratório do que em cenas de ação -, mas que resulta em uma obra um pouco aquém do que se espera por conta de um grande diretor cujo estilo, infelizmente, parece ter estacionado no tempo.

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