Capitão América: Guerra Civil

 

Filmes de super-heróis não são um material fácil de se lidar. Dentre as dezenas de películas baseadas em quadrinhos, há muitos acertos, há algumas obras efetivamente grandiosas e muita coisa ruim. É um gênero de extremos. Ainda que o super-herói seja uma personificação anabolizada do desejo do ser humano de lutar por justiça e corrigir erros da sociedade – não há como esconder o fator vigilante nessa equação – , há o fato inegável de que o que temos a nossa frente nada mais é do que um bando de adultos paramentados como se estivessem prontos para um baile de carnaval.

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Levá-los a sério demais produz obras que se afundam em sua própria pretensão, como o recente Batman vs Superman. O próprio Batman de Christopher Nolan funciona justamente por retirar o lado fantasioso e estabelecer um universo mais próximo do drama policial. E há os filmes da Marvel, que conseguem equilibrar o lado ridículo (sem nenhum juízo de valor nessa frase) dos super-heróis com seu lado épico e de dimensões dramáticas contundentes de forma (quase) equilibrada. Há momentos em que esta receita desanda, como nos bons, mas irregulares, Homem de Ferro 3 e Avengers: Era de Ultron. E há os casos em que tudo se encaixa com perfeição, como no primeiro Avengers, em Capitão América: Soldado Invernal, em Guardiões da Galáxia e neste fascinante Capitão América: Guerra Civil.

Dirigido pelos irmão Anthony e Joe Russo, Guerra Civil dá continuidade à Soldado Invernal (também dos irmãos) e é baseado bem livremente no arco dos quadrinhos do mesmo nome. A premissa de Guerra Civil é tão simples quanto eficiente: após as milhares de mortes causadas pelos heróis ao longo de suas aventuras – e uma tragédia em especial na sequência que abre o filme -, os Vingadores são obrigados a assinar um tratado de obediência, o que na prática significa colocá-los sob a supervisão de organizações políticas internacionais que determinariam quando e como eles poderiam agir. Isso coloca os heróis em lados opostos, com Tony Stark (também conhecido como Homem de Ferro) concordando – ainda que a contragosto – com este controle e com Steve Rogers (também conhecido como Capitão América) indo diametralmente contra. O conflito, dessa forma, torna-se inevitável.

A grande sacada dos irmãos Russo e do roteiro escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely é não polarizar o conflito (aprenda, Brasil). Aqui, é possível identificar e compreender tanto os motivos pelos quais tanto Stark – que se vê responsável pelas mortes ocorridas em função tanto de suas armas como pela criação de Ultron – quanto Rogers – que sabe da seletividade imparcial dos governos quando se trata de proteger a humanidade – divergem entre si. Não se trata de escolher quem está certo ou errado, mas sim da forma como cada um enxerga a realidade a sua volta e os efeitos que suas ações podem causar aos inocentes que deles estão próximos.

Tudo isso poderia desaguar num mambo jambo de conversas aleatórias criadas apenas com o objetivo de ocupar tempo em tela, mas os irmãos Russo conseguem estabelecer uma interação entre seus personagens de forma tão orgânica que é impossível não nos identificar com cada um deles. Na prática, os irmãos Russo conseguem, em pouco mais de 10 minutos de filme, desenvolver a personalidade de seus personagens mais do que Joss Whedon em todo Era de Ultron. Em Guerra Civil, as escolhas e reações dos personagens não existem apenas para dar andamento à trama, mas sim para revelar um pouco mais do que vai dentro deles. Isso se torna emblemático na pequena e tocante apresentação de um personagem adorado por todos e que entra lá pelo meio do filme. Essa verdade que está dentro de cada personagem – desde o lógico Visão até o prático Gavião Arqueiro, passando pela conturbada Wanda – é fundamental para que o espectador genuinamente se preocupe e se angustie por ver aqueles outrora amigos confrontando-se de forma violenta.

E que confrontos! Artesãos hábeis e com uma visão espacial privilegiada, os irmãos Russo sabem dirigir sequências de ação como ninguém, fugindo da montagem taquicardíaca de um Michael Bay e dando espaço para que todos os heróis possam mostrar suas habilidades com todas as vantagens que o melhor efeito visual permite. Isso é visível desde a impressionante sequência que abre o filme, em Lagos, na Nigéria, passando pelo já antológico embate no aeroporto em Moscou até a climática luta final, momento em que os diretores optam, com inteligência, em fechar o escopo desta guerra para suas duas figuras principais. Neste ponto, são admiráveis tanto os esforços de Robert Downey Jr, saindo finalmente do piloto automático com que vinha conduzindo seu Tony Stark nos últimos anos, quanto de Chris Evans, que traz uma credibilidade imensa a seu Capitão América, um homem fiel a seus princípios e cuja fidelidade a seus amigos é colocada constantemente à prova.

As novas adições ao time de heróis são mais do que bem-vindas. Chadwick Boseman surpreende com um Pantera Negra visualmente imponente e cujo desejo de justiça é mais do que compreensível – mesmo que traído por um sotaque sofrível. O Homem-Formiga de Paul Rudd traz uma mais que bem vinda dose de leveza e bom humor à trama, sendo responsável ainda por um dos momentos mais impactantes do filme.

Mas o destaque de Guerra Civil vai mesmo vai para a nova versão do Homem-Aranha, interpretado pelo jovem Tom Holland. Ainda que sua entrada no filme seja muito mais uma concessão fan service do que uma necessidade do roteiro, é correto afirmar que este não é apenas o melhor Aranha das telas, mas principalmente o melhor Peter Parker, que Holland emula com toda a introspecção, timidez e ingenuidade que o personagem merece.

Se há um ponto a se questionar no filme talvez seja seu vilão. Ainda que as motivações de Zemo (o sempre excelente Daniel Brühl) sejam verdadeiras e até mesmo justificadas, é impossível não perceber que o filme funcionaria da mesma forma caso ele não existisse, o que por si só denota a falha em sua execução. Mas a Marvel, via de regra, dificilmente acerta em seus vilões.

A conclusão quase em aberto de Guerra Civil deixa obviamente espaço para que os heróis voltem a se encontrar na próxima edição de Avengers, que também será dirigida pelos brothers Russo. Será curioso ver como os irmãos, cujo acerto está justamente em trazer para o chão a atmosfera fantasiosa do gênero, irão se alinhar com a perspectiva da chegada de Thanos, um personagem típico de ficção científica.

De qualquer maneira, a expectativa é boa. Com Guerra Civil, os Russo entregam um filme pipoca da melhor qualidade, com um desenvolvimento de personagens mais do que bem sucedido e que ainda encontra tempo para discutir temas dos mais pertinentes, tudo isso embalado em uma obra visualmente impactante e emocionante.

Um filme de super-herói como todos deveriam ser.

 

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2 comentários sobre “Capitão América: Guerra Civil

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