A Ghost Story

Mais do que um conto sobre a vida, a morte, o luto e a solidão, Ghost Story é um filme sobre o tempo e suas percepções. Nesta obra tão corajosa quanto fascinante, temos o fantasma de um jovem – o arquétipo básico de lençol branco e dois buracos negros para os olhos – que observa a rotina de sua ex-esposa após a sua morte. Preso a uma [não]existência perene e solitária, resta ao fantasma apenas observar o fluxo do tempo e as mudanças que este causa a seu redor. 

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O diretor David Lowery retrata essa trajetória lidando com o tempo de forma diversa. Em uma já famosa sequência, vemos Rooney Mara comendo uma torta por in-ter-mi-ná-veis cinco minutos – não há como evitar o sentimento de que o diretor amplia suas sequências mais por conta de um preciosismo do que por uma real necessidade narrativa. Em outros momentos, a narrativa elíptica salta intervalos de tempo gigantescos – anos, décadas – reforçando ainda mais o caráter de isolamento do fantasma frente a uma realidade em constante movimento.


O tom de fábula escolhido por Lowery para contar sua história encontra no diretor de fotografia Andrew Droz Palermo o parceiro ideal na criação de imagens puramente impressionantes [ a imagem do fantasma isolado em um edifício comercial é daquelas que vai demorar para sair de sua cabeça]. Eventualmente o filme esbarra numa necessidade de reforçar os seus conceitos de forma ostensiva – em especial num longo monólogo sobre a [in]utilidade da existência –, mas em sua maior parte, A Ghost Story é profundo e melancólico o suficiente para se sobressair a estas questões.


Com um lirismo que o aproxima do clássico A Árvore da Vida – imagens do universo e luzes aleatórias não são gratuitas – A Ghost Story reflete sobre nossa mortalidade e o que resta, não apenas de nossas memórias, mas de nossa passagem por este planeta – quem sabe, no fundo, sejamos apenas seres que vão aos poucos sendo apagados por camadas e mais camadas de história. 


Alguém pode estar observando tudo isso.

Ou não.

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