Blade Runner 2049

Se o que nos torna humanos são nossas experiências e nossas memórias, o que resta de nossa humanidade quando estas memórias e experiências são forjadas? O conceito de alma existe somente em que é gerado de forma natural ou esta também existe naqueles criados de forma artificial? Estes são alguns dos questionamento levantados nesse belíssimo Blade Runner 2049, sequência do clássico de 1982 dirigido por Ridley Scott.
Quem assume [felizmente] a direção desta vez é o canadense Dennis Villeneuve, um cineasta que não só respeita [ao nível da veneração] o original como faz questão de ampliar seu escopo em uma escala das mais ambiciosas. 

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Desta vez, temos um outro policial – desta vez interpretado por Ryan Gosling – cuja função é ‘remover’ replicantes antigos [os novos são completamente obedientes a seus mestres]. Em meio a uma remoção, ele descobre um segredo que pode afetar toda a sociedade. Blade Runner 2049 não é um filme fácil, mas é um filme absolutamente corajoso. 


Assim como havia feito em A Chegada, Villeneuve pouco se rende ao estilo moderno do blockbuster. Ao contrário: Blade Runner é um filme lento, de construção de atmosfera e de uma imersão visual e sonora como poucas vezes vista. Ainda assim, o roteiro de Hampton Fancher e Michael Green é eficiente o bastante para jamais cansar o espectador, acumulando revelações e surpresas a cada momento.


No papel do enigmático K, Gosling mantém a sua sisudez habitual, mas esta é perfeitamente alinhada ao arco de seu personagem. Neste ponto, um dos grandes destaques do filme é sua relação com a ‘namorada virtual’ interpretada por Ana de Armas – mais do que um ferramenta para que ele possa explicar o andamento do filme, sua Joi é um contraponto perfeito ao isolamento e a solidão autoimposta pelo policial. A presença já anunciada de Harrison Ford surge de forma natural e orgânica, e sua participação no filme é tão tocante quanto nostálgica.


Não há como falar do filme sem detalhar a excelência de sua parte técnica, a começar pela fotografia acachapante do mestre Roger Deakins [Oscar pra ele por favor] e a direção de arte que tanto referencia a Los Angeles chuvosa do filme anterior como registra de forma hipnótica os espaços artificiais do ‘santuário’ habitado por Jared Leto [responsável pela criação dos novos replicantes] e os desertos empoeirados de uma Terra devastada.

A trilha de Hans Zimmer emula com competência os acordes originais de Vangelis, com toda a pompa e um certo exagero que já são comuns ao compositor.
Blade Runner 2049 só não ganha nota máxima por alguns problemas bem pontuais, em especial em seu terceiro ato, momento em que acelera [sim, o filme tem problemas justamente quando resolve acelerar 🙂 ] determinados eventos e cria algumas situações que ora soam soltas na trama [o encontro com o grupo de replicantes no deserto], ajustes que não fazem muito sentido e servem apenas para auxiliar o protagonista [especialmente em relação ao destino de Deckard] ou momentos que não ressoam da forma como deveriam [o surgimento de determinado personagem do filme anterior é interessante, mas sem o peso dramático que o momento deveria exigir].

Ainda assim, Blade Runner é um filme obrigatório, uma continuação mais do que honrosa ao clássico de 82 e que, assim como no filme de Scott, deixa mais dúvidas do que certezas. As respostas não estão todas ali. É esse mistério que tanto fascinava em 82 e que ainda fascina em 2017.
[ ]
Adendos: vale lembrar aqui da bela participação de Dave Bautista, do rápido retorno de um policial que adora origamis, da ótima sacada de colocar Deckard em uma cidade em que nada é real e da charmosa e letal vilã interpretada por Sylvia Hoecks.

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