Star Wars: Os Últimos Jedi (2017)

Quando vi Star Wars pela primeira vez, no tempo em que ainda se chamava Guerra nas Estrelas e a noção de prequels ou sequels era inexistente, eu tinha 10 anos de idade. Era a idade certa. Tivesse nascido cinco anos antes ou cinco anos depois é provável que não teria me encantado tanto com a aventura orquestrada por George Lucas. Ver na tela aquela naves espaciais cruzando o espaço, heróis destemidos, princesas em perigo [mas não tanto assim] era como a realização de um sonho e uma viagem para um mundo de possibilidades inimagináveis. Foi o que despertou minha paixão por cinema.

Last-Jedi-Poster

Ao longo da sessão de Star Wars: Os Últimos Jedi, por vários momentos saltei da cadeira e urrei de fascinação exatamente como aquele garoto de 10 anos. O brilhantismo com que o diretor Rian Johnson deu continuidade às aventuras [re]iniciadas por J.J. Abrams no também ótimo O Despertar da Força bateu em mim como poucas vezes nos últimos anos. No fim, essa é a sensação que fica.

Mas é preciso ser claro em um ponto. Os Últimos Jedi não é um filme livre de problemas. Ao contrário. Há escolhas dramáticas e narrativas feitas por Rian Johnson que soam extremamente complicadas. Ainda assim, o resultado geral é bem mais positivo.

O filme retoma, logicamente, de onde Despertar da Força tinha parado. Desta vez os rebeldes estão sendo perseguidos pela Primeira Ordem e precisam escapar do extermínio. Ao mesmo tempo, Rey encontra-se com um recluso Luke Skywalker na busca pelo entendimento de seus poderes.

Como é de praxe na série, o filme emula aqui e ali momentos de episódios anteriores. A fuga dos rebeldes e o treinamento de Rey ressoam O Império Contra-Ataca, enquanto certos conflitos mais a frente são referência clara a Retorno de Jedi. Ao contrário de Despertar, porém, cujo argumento nada mais era do que um competentíssimo recorta e cola do Episódio IV [o que, sejamos sinceros, jamais foi um demérito daquela obra] ,  aqui as similaridades servem apenas para estabelecer um contexto, já que o roteiro de Rian Jonhson não se furta a brincar o tempo todo com as expectativas do público, subvertendo-as a todo momento e recheando o filme com mais surpresas do que você jamais esperaria de um filme de Star Wars.

Ainda assim, não há como negar que este mesmo roteiro parece não fluir com a mesma naturalidade que Despertar. Há um arco bem específico dos personagens Finn [Jon Boyega] e da novata Rose [Kelly Marie Tran] que parece existir unicamente para justificar suas presenças em cena. Ainda que este momento seja tematicamente interessante [ao colocar a elite interplanetária abastada em contraste com os rebeldes que estão sendo massacrados e ainda achar espaço para uma bem colocada crítica à indústria armamentista] fica nítida a impressão de uma barriga bem desnecessária.

Da mesma forma, é de se lamentar que personagens [que parecem] fascinantes como o DJ de Benício del Toro e a Capitã Phasma de Gwendoline Christie tenham tão pouco tempo em cena. Mais sorte tem Laura Dern, como a Vice Almirante Holdo, cuja participação traz um tom bem vindo de dignidade e altruísmo e Oscar Isaac como Poe Dameron, cuja audácia e impetuosidade o fazem uma das figuras mais emblemáticas desta nova trilogia.

O tom nostálgico se mantém, mas somente como background. A trilha sonora de John Williams assume tons mais graves – embora faça questão de reutilizar temas clássicos sempre que necessário – e temos o equivalente dos ewoks com os Porgs, as criaturas mais fofas e suculentas que você pode imaginar. Sim, o filme investe firme no humor, mas sem jamais soar deslocado ou inoportuno. Na verdade, o humor está ali justamente para suavizar todo o aprofundamento dramático que o filme vai aos poucos assumindo.

Como era de se esperar, o retorno de Luke Skywalker é um dos momentos mais fascinantes do longa. Mais do que um mestre Jedi com pleno dominio da Força, Luke surge como uma figura cansada, de voz claudicante, e decepcionada com os caminhos que sua vida tomou, seja pelo peso da responsabilidade em ser uma lenda como por sua sua suposta incapacidade em lidar com os poderes de Kylo Ren no passado.

Colabora e muito para esta sensação a presença carismática de Mark Hammil, que mesmo com suas conhecidas limitações artísticas entrega um atuação marcante repleta de dor e uma boa dose de arrependimento. Mas não se engane! Não há fraqueza em Luke, apenas o cuidado em lidar com seus próprios poderes e suas consequências.

A saudosa Carrie Fischer surge novamente como a General Leia. Ainda que com pouco tempo em cena, a personagem protagoniza aquele que talvez seja um dos momentos mais belos de toda a saga [logo nos primeiros 20 minutos] e passa, o tempo todo, uma presença de experiência mesclada com uma dose peculiar de compreensão e de finitude [ainda mais por sabermos de seu falecimento no ano passado].

Caminham lado a lado nesta trajetória os personagens Rey [Daisy Ridley] e Kylo Ren [Adam Driver] cuja ligação torna-se aqui estopim para conflitos que crescem em escala alarmante. Enquanto Daisy Ridley torna Rey uma figura firme e decidida em suas ações, Adam Driver transforme Kylo na figura mais interessante do longa, já que a todo momento somos confrontados com suas atitudes que podem [ou não] carregar segundas ou terceiras intenções – assim como seus sentimento em relação a suas ações futuras ou passadas.

Esse ar de mistério constante – e a tensão causada por jamais sabermos para onde nem como a trama irá avançar – torna o filme um exemplar completamente diferenciado dentro da saga. Não foram poucas as vezes que fui tomado pela sensação de estar vendo uma versão alternativa de Star Wars, tamanha a ousadia de Rian Johnson. Esta sensação, entretanto, é mais do que positiva. Que um blockbuster deste calibre tenha esta coragem é algo que deve ser sempre celebrado.

Como em todo Star Wars, os combates ganham um lugar especial nesta apreciação. Desde a batalha inicial – mais um momento tenso em que sentimos a perda como poucas vezes na série -, passando por um dos mais exuberantes duelos com sabres de luz até o combate final [num planeta cuja superfície riscada de sal vermelho é um deleite para os olhos e uma metáfora consciente tanto do sangue que mancha todo conflito como dos caminhos tortuosos pelos quais passam nossos personagens – ou de suas infinitas possibildades], Os Últimos Jedi não perde o foco. São sequências repletas de clímaces em cima de clímaces em cima de clímaces, deixando o espectador literalmente sem fôlego ao fim da sessão.

Mais do que as sequências de ação, porém, é o investimento emocional que conquista e que destroça. Ciente do fan service, mas ainda mais consciente do que faz um bom filme, Rian Johnson joga o espectador contra a parede o tempo todo. Não há segurança no filme. Tudo pode acontecer. E tudo – e mais um pouco – acontece.

A alma do filme, porém, não está apenas na condução competente da direção, mas na forma como o filme lida com os sentimentos de perda, do arrependimento, do desejo de conseguir algo maior, no aprendizado de que é preciso deixar o passado para trás e, principalmente, na crença de que cada um pode ser a fagulha para a vitória, como retratado com perfeição em mais um belo plano que fecha o filme.

E não podemos esquecer de um doce momento da aparição de um personagem clássico, que remete tanto em técnica como em sentimento a épocas que não voltam mais. É na voz deste personagem que compreendemos que o filme fala, principalmente, sobre o fracasso e como este pode ser um professor ainda melhor do que o sucesso, já que nos desafia constantemente a evitá-lo.

Os Últimos Jedi pode não ser um filme perfeito. É um filme que vai [com certeza] ofender os mais preciosistas. Mas é tudo feito com tanta energia, criatividade, surpresa, emoção e autenticidade que é quase impossível não se envolver ao ponto do coração bater mais rápido.

A criança de 10 anos que habita em cada um de nós agradece.

 

 

 

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